Conta-me Fernanda, o que te leva até meu quarto todos os dias de manhã? Não me leve a mal, não me incomodo com sua presença, mas me intriga os minutos que passas a me olhar enquanto ainda finjo dormir. Essa mesma mão que toca meu rosto com tanto cuidado parece ser a mesma que me diz não todos os dias e a boca que me beija quase sem coragem é aquela que me nega um sorriso sempre que possível. Teus passos no corredor tornaram-se tão audíveis que me sinto gavião esperando presa, mas ao invés de atacar, me recolho para ver sua reação; teus traços estão guardados em minha mente e afloram cada vez que só posso imaginar sua feição, sem poder abrir os olhos e te sorrir diante da surpresa que terias. Um dia hei de te confrontar, entregar todos aqueles bilhetinhos que quis deixar ao pé da cama, mostrar cada marca que carrego no peito, deixadas por você sem querer, ou quem sabe por querer; no fim das contas eu passei mais uma noite em claro, ensaiando o que te dizer quando entrares aqui cedinho, e como todos os dias vou apenas me permitir fingir.
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